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Museu

       A formação do acervo museológico do Instituto Arqueológico teve início com a fundação do sodalício. A visitação pública começou em 1866, com a abertura do museu, o que faz dele o primeiro de Pernambuco e um dos mais antigos em funcionamento no país. Desde a sua fundação, o Arqueológico passou a receber, na forma de doações ou como fiel depositário, bens culturais cedidos por particulares e entidades interessadas na conservação de peças antigas. Apesar de ser uma instituição dedicada aos estudos históricos, o pioneirismo fez com que vários objetos, ainda que não tivessem ligação direta com seus objetivos, fossem doados ao Instituto Arqueológico, na falta de outra instituição na qual se enquadrassem melhor. Nos seus primeiros anos funcionou como verdadeiro gabinete de curiosidades. A sua exposição contava com “cascos de tartarugas gigantes, a espada de um espadarte, um chifre de rinoceronte, uma costela de baleia e mesmo uma ‘pedra anti-diluviana’”.

A primazia no início das atividades permitiu que o Arqueológico pudesse recolher sem concorrência as doações feitas pelo público da província. Não obstante, isto fez com que, em virtude da enorme diversidade de objetos doados, a coleção e a exposição acabassem perdendo coerência do ponto de vista museológico. Além dos objetos mencionados, o acervo contava ainda com artefatos indígenas, mobiliário e peças de decoração. O museu passou por sucessivas reformas e nas últimas décadas assumiu um perfil melhor definido. Hoje é um museu dedicado à história e cultura de Pernambuco.

O acervo museológico do IAHGP contém grande quantidade de telas e retratos de figuras importantes da história de Pernambuco. Entre elas destacam-se três telas pintadas por Victor Meirelles, retratando o Conselheiro João Alfredo, o seu filho Manoel Correia de Oliveira Andrade e o do seu tio e sogro, o terceiro Barão de Goiana. A coleção de pinturas inclui ainda dois grandes painéis das Batalhas dos Guararapes, procedentes da Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes. Foram pintados, ou provavelmente restaurados, em 1801 por “Galvão”, pintor pernambucano (José da Fonseca Galvão) que atuou na praça no final do século XVIII e início do XIX. A coleção de pinturas inclui ainda retratos dos heróis restauradores, do Conde João Maurício de Nassau-Siegen e de Domingos José Martins, entre muitos outros.

Destacam-se no acervo as peças de mobiliário (mesas, cadeiras, marquesões, armários, etc.) de casas urbanas e rurais, que traçam um interessante perfil da sociedade pernambucana. Entre as principais peças deste tipo estão dois bancos de engenho, um deles, de fins do século XVIII, procedente do Engenho Noruega, situado em Escada e de propriedade do Capitão-mor Manuel Tomé de Jesus. Conservaram-se também quatro cadeiras do século XVII doadas por Luís Pereira de Faria em 1886; mesas diversas do século XVIII; uma cátedra da Aula Magna que pertenceu ao Ginásio Pernambucano; móveis do salão nobre que pertenceram à Assembleia Provincial; mobiliário do Palácio da Presidência da Província à época do Conde da Boa Vista; e dois marquesões do conhecido ebanista Béranger, que produziu também uma mesa de reuniões da antiga Assembleia Provincial, anterior à inauguração do atual Palácio Joaquim Nabuco.

Consta do acervo do museu um grupo de quatro interessantes palanquins, popularmente conhecidos como cadeirinhas de arruar, utilizadas para circular pelas ruas da cidade até a implantação dos meios mais modernos de transporte no século XIX. Um deles é dourado e decorado com pinturas referentes ao mistério da Eucaristia. Pertenceu à Matriz da Boa Vista e foi oferecido ao Instituto Arqueológico em 1885 por Joaquim José da Silveira. Servia para os deslocamentos do vigário quando ia administrar o Viático aos enfermos.

Está exposta ainda uma vasta coleção de objetos decorativos e utilitários pertencentes às antigas famílias pernambucanas, como aparelhos de jantar, prataria, vestuário e objetos pessoais em geral. Entre eles podemos destacar, pelo valor histórico que encerram, a espada e os óculos de vidro verde que pertenceram ao Capitão José de Barros Lima, o “Leão Coroado”, figura que precipitou a eclosão da Revolução de 1817 em 6 de março. Sobre esta espada, noticiou o Jornal do Recife de 20 de agosto de 1869 que o Arqueológico recebera a doação feita pelos senhores Joaquim Inácio, Faustino e Antônio Joaquim de Barros Lima, netos do Leão Coroado.

Os doadores declaram em correspondência ao Arqueológico que: “ a convicção que temos, nós e nossa família, de que prestamos um serviço à província, doando ao Instituto Arqueológico, que tem sabido também conservar-lhe as glórias, a espada de um filho seu que por amá-la e muito querer vê-la livre deu por ela a vida, nos faria apartar desse objeto que guardávamos como depósito sagrado de família. A identidade dele não pode ser posta em dúvida, desde que afirmamos que nos foi ele restituído por Agostinho Coelho da Silveira, parente e amigo, a quem José de Barros procurou quando perseguido, se ocultar nas matas do seu engenho Mussupinho (…)”. Foi por conta desse perfil de guardião das relíquias dos momentos mais importantes da história de Pernambuco que o Arqueológico recebeu também os restos mortais do Pe. João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro e do Vigário Tenório, mártires de 1817.

Uma das peças mais importantes do acervo é o marco divisório das capitanias de Pernambuco e Itamaracá, assentado pelo primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, em 1535. A peça foi doada em 28 de junho de 1888 por Francisco Cavalcanti Jaime Galvão, proprietário do engenho Nazaré (Igaraçu), onde a mesma se encontrava originalmente. É uma coluna cilíndrica de 2,55 metros de altura, encimada por um brasão de Portugal. É monumento nacional tombado pelo IPHAN desde 1938, como aliás, todas as coleções arqueológicas, históricas e artísticas do IAHGP.

É notável ainda a coleção de documentos epigráficos na qual se incluem lápides, esculturas e inscrições variadas do século XVII ao XX. Uma das peças é uma pedra de arenito dos arrecifes, com 1,09 m de altura e 0,78m de largura, representando um profeta emoldurado pela inscrição “Jacob ben ick genaemt” (Eu me chamo Tiago). Esta pedra estava na fachada de uma casa da rua dos Judeus (atual rua do Bom Jesus) durante a época holandesa. Destacam-se ainda as duas grandes pedras que serviam de base aos pilares do Arco de Santo Antônio, da ponte do Recife (atual Maurício de Nassau), recolhidas ao Instituto Arqueológico em 1917 por ordem do Diretor das Obras Públicas José Apolinário de Azevedo.

Os armamentos antigos são também uma parte importante do acervo. O Museu possui, por exemplo, uma grande quantidade de armas brancas e de fogo, que pertenceram a figuras destacadas da história do estado ou que foram utilizadas em batalhas decisivas da formação da nacionalidade e nos muitos movimentos revolucionários pernambucanos. Entre elas, podemos destacar o canhão de bronze de origem holandesa pertencente à Companhia das Índias Ocidentais (WIC), fundido em Amsterdã em 1629. Trata-se de uma peça de 2,5 toneladas que se conservou em Pernambuco graças à intervenção do Instituto Arqueológico, sendo o único desse calibre com o monograma da WIC ainda existente no Brasil.

Ao circular a notícia de que o Ministério da Guerra ordenara a transferência para o Rio de Janeiro de dois canhões holandeses que estavam no Arsenal da Marinha no Recife, o Instituto Arqueológico solicitou ao Ministro que “em lugar de os remeter para essa Corte, ponha-os ambos, ou ao menos um, à disposição deste mesmo Instituto, ou os conserve no Arsenal de Guerra de Pernambuco, onde possam ser vistos em todo o tempo”. Por ofício de 7 de março de 1866 autorizou-se a doação da peça ao Arqueológico. Apesar disso, o canhão somente seria depositado no acervo em 1885, tendo sido pleiteada sua devolução ao Arsenal em 1891, solicitação negada pelo Ministério da Marinha ao determinar que devia “continuar no Museu do Instituto a peça holandesa”.

A identificação de algumas peças do acervo museológico do Arqueológico – que estimamos conter cerca de 2.500 bens culturais – é praticamente impossível em virtude da precariedade do registro das doações realizadas ao longo do tempo. Explica Gonsalves de Mello: “os registros de doações feitas deixam dúvidas algumas vezes não só quanto à identificação do objeto doado, [mas também] quanto à procedência deles. Para exemplificar: Manuel Pinheiro ofereceu (14/4/1887) ‘um prato de 200 anos com pintura da Índia’; o Tenente Coronel Manuel de Carvalho Brandão ofertou (9/6/1887) ‘um prato antigo’ e, na mesma ocasião, José Joaquim Alves de Albuquerque doou ‘dois pratos de data remota’”. Outra dificuldade é que, como muitas peças doadas já não se encontram no acervo, o cruzamento de informações fica prejudicado. Várias peças desapareceram durante os anos de crise após a demolição da sede em 1911 e também pela ação dos gatunos que em algumas ocasiões atacaram a instituição.

Atravessando as décadas e superando dificuldades, o Museu do IAHGP vem cumprindo sua missão de levar ao público as relíquias da história de Pernambuco. Várias gerações de visitantes passaram pelos seus salões, recolhendo impressões que muitas vezes foram marcantes em suas vidas. Como ocorre desde a sua fundação, o Museu continua recebendo doações de várias pessoas e instituições. Não obstante, os atuais associados promovem periodicamente a aquisição de peças colocadas à venda por colecionadores particulares. O Museu também tem cedido por empréstimo objetos do seu acervo para exposições realizadas em todo o Brasil e em outros países, promovendo a circulação dos bens culturais de interesse para diversos públicos. Atualmente, tem seu acervo protegido pela vigilância permanente da Guarda Patrimonial da Polícia Militar de Pernambuco.

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